Eu só quero um lugar para me esconder


Porque será que as coisas acontecem tão depressa?

Parece que foi ontem que a minha maior preocupação era enfrentar a escuridão do meu quarto antes de correr para debaixo das cobertas. Esse era sempre o momento mais desafiador da noite, já que exigia de mim uma agilidade que eu não tinha para apagar a luz e pular para a cama em questão de milésimos de segundos.  

O tempo passa, a gente cresce, mas infelizmente os nossos monstros acabam crescendo junto com a gente também. O problema é que dessa vez não existe mais cobertor para nos esconder do medo que enfrentamos quando estamos em situações de escuridão. Se existe, com toda certeza em algum momento ele nos foi puxado por alguém mal intencionado ou até mesmo pela própria vida, que como incentivo ao enfrentamento das nossas limitações, resolve nos tirar da zona de conforto.

Pensar nisso tudo me faz sentir falta de ser aquela criança novamente. De poder chorar sem ser visto, sorrir sem moderação ou de não me preocupar com terceiros. De ter um lugar para me abrigar ao final do dia por saber que o mundo real cada vez mais me distanciaria de tudo o que eu idealizava como felicidade e realização.  No fundo, todo esse desejo de me esconder trazia consigo também a esperança de um dia poder ser encontrado. Era um paradoxo de dor e confiança, desistência e perseverança. 

Por muito tempo me enganaram dizendo: "quando você for mais velho, você vai entender!". Cá estou eu com quase 24 anos de vida e com o dobro de desilusões no meu currículo, porém entendendo muito menos do que eu entendia quando tinha 10.

Toda a pressão para me tornar alguém, crescer, amar e ser amado não me foi suficiente, pois quando se tem inúmeras coisas para dar atenção, fica cada vez mais difícil olhar para si mesmo. E era isso que aquele tempo que eu passava embaixo da coberta me proporcionava: a chance de olhar para o meu eu vulnerável, movido muitas vezes pelo medo, mas com um grande desejo de alcançar a coragem. 

Acho que no fundo o que todos nós precisamos é de um lugar para colocar para fora as nossas inseguranças sem corrermos o risco de sermos julgados. Dessa maneira passaremos a ter a perspectiva de que a principal função do medo é nos ensinar que as limitações fazem parte da nossa humanidade e que não existe nada de errado em ser assim.

Esse texto faz parte do projeto Cinco Lados e cumpre o "Desafio 4 - Um texto sobre algum medo".

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